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Um vale – ossos secos e ruah –uma espírito transgressora

Estudo bíblico – Assembleia - CLAI – Havana – Cuba
Ez 37.1-10

Um vale – ossos secos e ruah –uma espírito transgressora
Sobreveio sobre mim a mão de Javé. E o espírito de Javé me levou e me deixou nem vale cheio de ossos. E o Espírito me fez circular em torno deles, por todos os lados. Notei que havia grande quantidade de ossos espalhados pelo vale e que estavam todos secos. Então Javé me disse: - “Criatura humana será que esses ossos poderão reviver? Eu respondi: -“Meu Senhor, Javé, tu es o que sabes. Então ele me disse: “_Profetize dizendo: “Ossos secos, ouçam a palavra de Javé! Assim diz o Senhor Javé a esses ossos: Vou infundir um espírito, e vocês reviverão. Vou cobrir vocês de nervos, vou fazer com que vocês criem carne e se revistam de pele. Em seguida, infundirei o meu Espírito, e vocês reviverão. Então vocês ficarão sabendo que eu sou Javé.
Profetizei de acordo com a ordem que havia recebido. Enquanto eu estava profetizando, entre os ossos que começaram a se aproximar um do outro, cada um com o seu correspondente. Observando bem, vi que apareciam nervos, que iam sendo cobertos de carne e que a pele os recobria; mas não havia espírito neles. Então Javé acrescentou: “Profetize ao Espírito e diga: “- Assim diz o Senhor Javé: “Espírito, venha dos quatro ventos e sopre nestes cadáveres, para que revivam. Profetizai conforme ele havia mandado. O Espírito penetrou neles e reviveram, colocando-se de pé. Era um exército imenso.

Uma reflexão:
Por onde começar a refletir sobre este texto profético tão carregado de simbolismos? Com tantas imagens que nos remetem facilmente a cenas que lembram campos de concentração, prisões, violência e tantas outras imagens nada poéticas?
Ossos amontoados, que foram movidos e reconstituídos pelos ventos provenientes de quatro vales. O que significam estes ossos no vale da Babilônia? As exegeses nos dizem que estes ossos nos remetem aos deportados de Jerusalém para a Babilônia. Em 548 a.c. foram exilados aproximadamente dez mil pessoas pertencentes à elite da capital Jerusalém. Uma vez no desterro, ninguém poderia imaginar que estas ossos poderiam representar as pessoas que outrora ocupavam os cargos mais altos de Jerusalém. O profeto capricha na hora de descrever estes ossos. Eles eram secos, muito secos. Entre eles não havia vida alguma. Era silêncio.
O profeta olha este cenário desolador.
No entanto, estes ossos estavam em um vale. Os vales são bons lugares. É nos vales que sopram os ventos que despertam. É nos vales que sopram os ventos que trazem vida.
Os ventos do deserto, por exemplo, não são agradáveis. Eles desorientam, secam poços, enterram os oásis. Milton Schwantes, na exegese sobre este texto, chamou a atenção de que o vento do deserto é o mensageiro da morte.
Se era o vento dos vales que soprava sobre o vale de ossos secos pode-se suspeitar que havia esperança.
Os ossos que estão nos vales tem possibilidade de renascer. É isso que indica a orientação dada por Javé ao profeta: Ossos secos, ouçam a palavra de Javé! Assim diz o Senhor Javé a esses ossos: Vou infundir um espírito e vocês reviverão. Vou cobrir vocês de nervos, vou fazer com que vocês criem carne e se revistam de pele. Em seguida, infundirei o meu Espírito, e vocês reviverão. Então vocês ficarão sabendo que eu sou Javé.
O profeta seguiu a orientação e viu os corpos se recompondo. No entanto, faltava o espírito e os corpos seguiram deitados. Javé orienta novamente o profeta a falar. O profeta falta:
“Espírito, venha dos quatro ventos e sopre nestes cadáveres, para que revivam. Profetizai conforme ele havia mandado. O Espírito penetrou neles e reviveram, colocando-se de pé. Era um exército imenso.
Milton Schwantes, em sua exegese sobre este texto bíblico, ficou intrigado com a palavra exército. Os exércitos na América Latina não têm uma história positiva. Foram agentes promotores de violência, de ditaduras, torturas. Seria necessário identificar outra palavra. O exegeta, em sua busca, identificou que na tradução grega a palavra exército é traduzida por Sinagoga/povo. Formou-se, então, um imenso povo.
O Espírito move os ossos...que andam. Milton Schwantes diz: que o espírito está nos pés. Ele fortalece os pés. Ele faz com que o povo caminhe. Trace seus desígnios rompa com o lugar comum. Abandone o que resseca. Os ossos conseguem isso depois da ação transgressora de Ruah. Que não foi aprisionada por nem um sistema político, religioso. A Ruah livre é que possibilitou os ossos colocarem-se em pé.
Em um contexto latino-americano facilmente tendemos a estabelecer um paralelo entre os ossos secos e o povo sofrido de nosso continente: mulheres, homens, indígenas, negros, ribeirinhos.....
No entanto, não podemos esquecer que os ossos secos eram da elite que fora exilada em Jerusalém. Não eram os pobres. Era uma elite que pensava, elaborava leis, regras, controlava condutas.
Os nossos pobres de hoje não são os ossos ressecados no vale. A falta de esperança não está com eles. Eles se organizam. Recentemente assistimos povos indígenas ocuparem o Congresso brasileiro, assustando alguns parlamentares com esta presença tão diferente na Casa do povo! No Chile estudantes promoveram movimentos de reivindicação por uma educação pública e de qualidade. Temos experiências de revoluções como a cubana, nicaraguense, salvadorenha.
Quem seriam os ossos secos hoje? (CONVERSA E PARTILHA)
Pergunto: os ossos secos não poderiam ser nossas próprias igrejas? Quando Não conseguem atualizar suas teologias? Quando querem aprisionar o Espírito e indicar onde, como, quando e em quem deve soprar?
A América Latina já foi cenário de um rico movimento teológico. Destemido, sem medo de profetizar.
Houve época em que as contradições eram apresentadas por sistemas políticos diversificados. Havia como identificar referenciais: capitalismo ou socialismo.
 Hoje, com a ideologia do fim da história, vivemos em um eterno presente. Ficamos carentes de utopias. Na ausência de referências claras, ficamos perdidos.
Hoje, somos tímidos. Não gostamos das transgressões. Somos igrejas comportadas. Aceitamos viver as ambiguidades inerentes aos sistemas religiosos que ao mesmo tempo em que promovem assistência, tem dificuldades em assumir uma igualdade de direitos em um contexto de diversidades e de individualidades.
É o silêncio cumplice o que nos mata hoje!
A mistura de papéis, a equalização de direitos, a democratização de vozes opinando sobre assuntos diferentes, sobretudo religiosos, é extremamente perturbadora da ordem cultural e das religiões. Por isso, há muitos grupos religiosos, querendo se proteger de todas as perturbações religiosas provocadas pelos grupos chamados minoritários.
Nosso temor nos torna ossos secos. Talvez estejamos tão secos que não temos nem muita coragem em aceitar que o espirito sobre livremente também sobre nós. Nos colocando em pé para revisar nossas teologias, para assumirmos nossos papéis proféticos. Para assumirmos e ouvirmos as pluralidades que estão dentro de nossas instituições. A recomposição dos ossos que estão no vale é justamente a esperança de que nos cabe uma tarefa como igrejas de rompermos com o senso comum. De dizermos não às posturas fundamentalistas que varrem a América Latina.
Se por anos denunciamos as tiranias e as ditaduras...cabe-nos, agora, denunciar nossa própria apatia.
Vem Ruah transgressora. Desconstitua-nos – varre-nos – reatualize nossos sonhos – quebre-nos Recomponha-nos e reinventa-nos!
Que os ventos dos vales soprem sobre nós também.

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